O racismo não é do universo do futebol. É universal

É sempre assim: toda vez que acontece algum caso de racismo sob os holofotes da mídia, flagrado por ela, tende-se a discutir “o racismo no universo do XXXX”.

Quando há algum caso de racismo no mundo da moda, começa-se a discutir “o racismo no mundo da moda”.

Quando há caso na internet, há uma rodada de discussões sobre “o racismo na internet”.

A vez, agora, é do futebol.

Dois jogadores brasileiros foram chamados de macacos por ucranianos. Um torcedores do atlético mineiro disse, durante uma discussão pós-jogo, para um segurança negro “olhar a sua cor”.

Então começou-se a pedir a punição dos crimes (racismo é crime).

Tudo a favor de punições a criminosos.

Mas há algo que se perde no modo que se aborda a questão.

Indexar o racismo a um universo. A um momento visível.

E calar-se após o esfriamento do caso.

Agir como se após a punição de um racista todo o racismo acabasse.

Até o próximo caso, em um outro universo, que “reacender” a discussão sobre o racismo.

A discussão a respeito do racismo não é assunto para ir e vir. Não é algo para se conversar apenas quando algo torna-se famoso.

Racismo é para ser discutido todos os dias.

Não há “racismo no universo do futebol”.

O que há é racismo no universo.

O que há não são “casos de racismo que nos revoltam”.

O que há é a casualidade do racismo.

Os torcedores da Ucrânia, adultos, não foram racistas no momento em que chamaram os jogadores brasileiros de macacos.

Os torcedores da Ucrânia são racistas.

O torcedor do Atlético não foi racista.

Ele é racista.

O cidadão não é apenas torcedor do Atlético.

Ele tem emprego. É, quem sabe, marceneiro, motorista, gerente de banco, tanto faz.

Como os torcedores ucranianos estão, neste momento, com ou sem as camisas de seus times, vivenciando suas vidas normalmente, existindo no mundo de uma forma racista.

O racismo não é exclusividade do universo do futebol.

O racismo é do universo.

É necessário irmos além das reflexões pontuais. Não parar para pensar no assunto apenas quando casos notórios acontecem.

É preciso entender que falar de racismo não é algo “chato”.

Falar de racismo é melhorar o mundo.

É como falarmos sobre as conquistas da medicina contra o câncer, por exemplo.

Na próxima semana, os dois casos de racismo no futebol falados estarão um tanto esquecidos.

Não aqui, no Quadro-negro.

Para nós, falar de racismo é sinal de saúde.

E calar à respeito o câncer de todos nós.